O Conjunto Arquitetônico do Ibirapuera

O Conjunto Arquitetônico do Parque do Ibirapuera foi idealizado em 1951 pela equipe de arquitetos liderada por Oscar Niemeyer a partir do convite que o arquiteto recebeu de Cicillo Matarazzo, então o presidente da Comissão do IV Centenário (autarquia municipal responsável pelo evento de comemoração do aniversário da cidade de São Paulo). A proposta era centralizar todas as manifestações comemorativas dos 400 anos da cidade num conjunto que representasse a grandiosidade e posição de vanguarda da cidade perante à nação.

O projeto concebido por Oscar Niemeyer é composto de cinco edifícios, então nomeados Palácios, tamanha imponência que era agregada à imagem dos edifícios. Cada um deles estava destinado a abrigar exposições específicas a uma determinada atividade de destaque da cultura e economia paulistanas. Assim, compunha o Conjunto o Palácio das Indústrias, o Palácio das Exposições, o Palácio das Nações, o Palácio dos Estados e Palácio da Agricultura. O projeto previa ainda um Auditório que centralizaria congressos, seminários e exibições artisticas. Esta obra só veio a ser implantada em 2003, após longo processo político de interesses e, ainda, sob um novo desenho proposto por Niemeyer. O projeto final aprovado para a construção do Conjunto Arquitetônico do Ibirapuera é resultado de alterações nos ante-projetos anteriores. Nos parece que foram dois momentos de definição no projeto anteriormente à sua finalização e execução. Em 1951, surgiram as primeiras propostas. Nesse momento o conjunto ocupava maior espaço no Parque, além da arquitetura dos edifícios serem mais arrojadas, o que afetava a exequibilidade da construção e o orçamento final da obra. Em 1954, a equipe apresenta uma nova disposição dos edificios e uma arquitetura modernista de traços mais leves. No entanto, este projeto ao ser executado sofreu mais uma alteração, pois não foram construídos um Auditório e um sub-conjunto situado em face lindeira ao lago composto por um restaurante, danceteria e píer para barcos e pedalinhos. A descrição de cada um dos edifícios nos auxilia a compreender melhor a trajetória do Conjunto.

Palácio das Indústrias, atual sede da Fundação Bienal de São Paulo, foi concebido originalmente para abrigar as exposições permanentes da indústria paulista. Os arquitetos desenvolveram, a princípio, um grande edifício com uma casca de cobertura arredondada, protegendo os três pavimentos do prédio. A rápida construção do Palácio deve-se ao emprego de modernos métodos da engenharia brasileira da época e ao programa aplicado pelos construtores. O edifício tem aproximadamente 36.000 m2 de área para exposições. Durante as comemorações de 1954 abrigou diversos stands das mais variadas indústrias paulistas. Atualmente é a sede da Fundação Bienal de São Paulo, onde acontecem as famosas Bienais Internacionais de Artes Plásticas e de Arquitetura. Além destas exposições, o edifício vem abrigando atualmente as apresentações de moda do São Paulo Fashion Week e outras exposições e exibições de destaque.

Palácio das Exposições é atualmente denominado Pavilhão Lucas Nogueira Garcez, também identificado como a OCA. Foi projetado em 1951 para servir de abrigo a um Planetário. No entanto, em 1954 o edifício foi destinado à exposição da História de São Paulo, entre outras manifestações. O Palácio é constituído por três pavimentos que ocupam aproximadamente uma área de 11.000 m2. Sua cobertura é um dos elementos mais arrojados do Parque e demandou um cuidadoso estudo para sua construção. As sapatas de fundação estruturam a casca de cobertura em forma de cúpula que, devido a grande quantidade de ferro em sua armação, está livre de qualquer tipo de pilar ou apoio. Este edifício tem base com 76m de diâmetro e alcança até 18m de altura. O Palácio já serviu de sede para um Museu de Folclore e para o Museu da Aeronáutica. Em 2004, nas comemorações dos 450 anos de São Paulo, a Oca abriga uma das maiores exposições do artista espanhol Pablo Picasso, patrocinada pelo banco Bradesco.

Palácio das Nações, no projeto original de 1951, dividia o mesmo desenho e programa de construção com o Pálacio dos Estados. Naquela solução havia a proposta de semi-enterrar um pavimento do edifício a fim de reduzir a altura e garantir acessos mais fáceis. No projeto aprovado de 1954, o Palácio foi destinado a abrigar as representações dos vários paises na Exposição Internacional do IV Centenário. O edifício também recebeu as mostras da II Bienal de São Paulo. Atualmente conhecido como Pavilhão Manoel da Nóbrega, o edifício é resultado de um inegável sucesso perante as diversas dificuldades encontradas na construção, principalmente nas questões estruturais, onde foram exigidas soluções estruturais ousadas e inovadoras, como os pilotis externos. A prefeitura do município de São Paulo instalou-se neste prédio após o IV Centenário e permaneceu no local até 1993. Desde então, o prédio passou a pertencer ao Estado de São Paulo, que sondava a possibilidade de instalar no local um museu de arte afro-brasileira. A implementação deste museu aconteceu em 2004, o que veio auxiliar a concepção da concretização de um Centro de Artes no Ibirapuera.

Palácio dos Estados tem características técnicas iguais as do Palácio das Nações. Em 1951, os arquitetos já haviam desenhado um mesmo projeto para ambos os edifícios. Seu desenho simples e de formas inusitadas caracterizam sua arquitetura. Um elemento presente neste Palácio que não foi implantado no semelhante Palácio dos Nações são os brise-soleil (quebra-sol) como proteção dos raios solares que aí incidem. Nas comemorações do IV Centenário, em 1954, este palácio serviu de sede para a exposição dos vários Estados do Brasil. Ainda, Dividiu a exposição da II Bienal de Artes Plásticas de São Paulo com o Palácio das Nações. A partir de 1976, a Prodam-SP instalou-se neste Palácio, atual Pavilhão Engenheiro Armando Arruda Pereira. Ocupando todo o prédio e dotado de estacionamento próprio, controlado por guaritas, este órgão municipal confirma a inserção de repartições públicas no Parque e que ainda permanece, bem como desrespeita a concepção e função de um parque.

Palácio da Agricultura foi encomendado aos arquitetos da equipe de Oscar Niemeyer pela Comissão do IV Centenário sob os recursos financeiros do Estado de São Paulo. Já estava previsto que a Secretaria da Agricultura do Estado ocupasse o edifício, após as comemorações de 1954. No entanto, o antigo Palácio da Agricultura é atualmente a sede do Detran-SP. Em seu desenho original (1951), o pavimento térreo teria um salão de exposições e um restaurante sob o terraço de formas curvas. O pavimento tipo apresenta um grande espaço para diversos departamentos e repartições, previstos para o funcionamento da Secretaria. Na cobertura, estariam concentrados os 17 apartamentos destinados à hospedagem, salão, copa e terraços. Um dos pontos marcantes na arquitetura deste edifício são os pilotis em forma de “V”. Segundo o arquiteto Niemeyer, o desenho desses pilotis é uma solução para liberar mais espaço no térreo.

Em 1954, o Parque do Ibirapuera deveria ter recebido, como previam os arquitetos, um auditório para realizações de congressos, apresentações teatrais e musicais. No entanto, alguns documentos históricos mostram que em agosto de 1953 as negociações para a construção do Auditório haviam sido encerradas e o prédio não seria erguido para o IV Centenário de São Paulo. É interessante apontar que o arquiteto franco-suíço Le Corbusier, um dos maiores representantes da arquitetura moderna internacional, foi convidado a elaborar duas pinturas que estariam nas laterais do Auditório do Ibirapuera. Uma correspondência que a Comissão do IV Centenário enviou a Le Corbusier sobre a não construção do auditório e, consecutivamente, a não execução de suas pinturas, marcou o final da possibilidade de executar o projeto para a construção do Auditório no Ibirapuera. O conjunto formado pelo Auditório e a atual Oca do Ibirapuera sempre foi enfatizado pelo arquiteto Oscar Niemeyer como o elemento de maior importância arquitetônica e plástica para o Parque. Ambos edifícios, interligados por uma extensão da marquise, apresentam um “desenho simples e puro”, como afirma Niemeyer. Esta integração era pretendida visando garantir a unidade arquitetônica do conjunto. A discussão sobre a construção do Auditório foi mantida ao longo dos 50 anos de existência do Parque, ora se aproximando da efetiva construção, ora se afastando de qualquer possibilidade para a implantação do edifício. Somente em 2002, na gestão da prefeita Marta Suplicy, o assunto volta à tona. Durante o ano de 2003, longas discussões entre órgãos competentes aconteceram porque tal construção diminuiria a quantidade de área permeável no Parque e alterar o conjunto arquitetônico de Niemeyer tombado pelo CONDEPHAAT. De um lado, a prefeitura defendia que a obra era legal, já que foi examinada e aprovada pelo CONDEPHAAT, além de representar mais uma função de cultura e lazer para a população. De outro lado, o Ministério Público afirmava que a obra não poderia ser executada pois desrespeitava o terceiro artigo da mesma resolução do tombamento do Parque, que proíbe o acréscimo de áreas construídas no parque, a fim de preservar a permeabilidade e meio ambiente do local. Felizmente, o projeto foi aprovado e no início de 2005 a obra foi entregue à população completando o conjunto arquitetônico original do Parque do Ibirapuera e garantindo a unidade plástica de ilustre beleza concebida por um dos maiores arquitetos do mundo, Oscar Niemeyer.

Autor: Wesley Macedo

http://wesleymacedo.wordpress.com/2012/04/04/49/


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