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Ary Evangelista Barroso

                                             Ary Evangelista Barroso

                          Ary Barroso e Villa Lobos

Ary Evangelista Barroso nasceu em Ubá, estado de Minas Gerais, em 1903. Com sete anos de idade, ficou órfão de pai e mãe, que morreram de tuberculose - ela, aos 22 anos, e ele, que era deputado estadual e promotor público, aos 31. O menino acabou sendo criado numa fazenda por uma avó e por uma tia, que tocava piano e foi a responsável por sua introdução no mundo da música. Aos doze anos, ele passou a ajudá-la, atuando como o seu pianista auxiliar nas execuções dos fundos musicais dos filmes - mudos - que passavam no cinema da cidade.

 Ary teria outro emprego mais tarde, enquanto estudava: como caixeiro de uma loja. Adolescente rebelde, de temperamento difícil, passou por várias escolas, tendo sido expulso de duas, até terminar os cursos ginasial e colegial (os atuais primário e secundário). Aos quinze anos, fez suas primeiras composições, um cateretê e uma marcha. Aos dezessete, recebeu uma herança de um tio político - Sabino Barroso, ex-ministro da Fazenda - e se mudou para o Rio de Janeiro. Logo estava frequentando as rodas boêmias da cidade.

Em 1921, ingressou na Faculdade de Direito. No ano seguinte, interrompeu temporariamente os estudos e, já sem dinheiro, foi trabalhar como pianista em cinema. Em 1923, começou a tocar em orquestras - integraria várias delas nos anos seguintes. Tocando em uma, excursionou em 1928 para Poços de Caldas, onde ficou quase um ano, período em que se dedicou à composição.

Na volta ao Rio, em 1929, teve duas músicas incluídas na peça "Laranja da China", dando início à sua longa atuação em teatro de revista: "Vamos Deixar de Intimidade" e "Vou à Penha", ambas gravadas (a primeira, no ano anterior, a segunda, naquele ano) por Mário Reis. O cantor era colega do compositor no curso de Direito, que Ary só terminou em 1929.

Também neste ano, ele venceu um concurso para o carnaval seguinte com a marchinha "Dá Nela". Com o dinheiro do prêmio, resolveu se casar no início de 1930. Partiu então com Yvone - a mulher com quem viveria o resto da sua vida - para Belo Horizonte, onde um tio deputado estadual arranjou para ele uma nomeação para juiz municipal em Nova Resende. Ary não permaneceu no emprego: decidido a se dedicar definitivamente à música, regressou ao Rio.

Os anos trinta representaram para Ary Barroso o período culminante de sua produção musical. Na primeira metade daquela década, seu trabalho obteve uma grande difusão, decorrente dos lançamentos - nas vozes de cantores os mais populares na época - de algumas músicas que se tornariam clássicos:

"No Rancho Fundo" com Elisinha Coelho e "Faceira" com Sílvio Caldas, em 1931; "Maria" com Sílvio Caldas, em 1932; "Cabocla" com Francisco Alves, "Tu" com Sílvio Caldas e "Na Batucada da Vida" com Carmen Miranda, em 1934; "Inquietação" e "Por Causa Desta Cabocla" com Sílvio Caldas e "Grau Dez" com Francisco Alves, em 1935.

Paralelamente à atividade compositória, o músico passou a atuar em outro setor do meio artístico, o rádio, dando vazão à multiplicidade do seu talento. Seu ingresso no meio ocorreu em 1932, para trabalhar como pianista. Mas ele não demorou a se tornar animador, humorista e locutor - esportivo, inclusive. Nesta função, ele veio a introduzir uma inovação marcante: o som de uma gaita, sempre que saía um gol.

Em 1934, Ary viajou à Bahia como integrante da Orquestra Napoleão Tavares. O encantamento que lhe causou a cidade de Salvador lhe inspirou a criação dos célebres sambas exaltando a terra, a gente e alguns costumes baianos. Alguns vieram a figurar entre os seus maiores sucessos dos anos seguintes, todos na interpretação de Carmen Miranda:

"Como 'Vaes' Você?" e "No Tabuleiro da Baiana" (cantado em dupla com Luís Barbosa), em 1936; "Quando Eu Penso na Bahia" e "Eu Dei", em 1937; e "Boneca de Piche" (cantado com Almirante), "Escrevi um Bilhetinho" e "Na Baixa do Sapateiro", em 1938.

Em 1937, ele estreiou um programa que ficaria famoso nas décadas seguintes: "Calouros em Desfile". Apresentado primeiramente na rádio Cruzeiro do Sul, acabou sendo levado dois anos depois para a Tupi, para a qual Ary se transferiu por uma quantia alta na época, consolidando sua posição de estrela do meio radiofônico. No programa, ele instituiu outra inovação: o gongo.

O ano de 1939 representou um divisor de águas também em sua trajetória musical. Numa noite de chuva que o impediu de sair de casa, Ary se dirigiu para o piano, tentou mimetizar o som do pandeiro e acabou compondo "Aquarela do Brasil", que se transformaria no maior sucesso de sua carreira.

Ao lado de "Camisa Amarela" com Aracy de Almeida, "No Rancho Fundo" com Sílvio Caldas e "Iaiá Boneca" com Mário Reis, a música - que inaugurou o gênero samba-exaltação - estourou de imediato na voz de Francisco Alves. Para a sua popularidade influiu o grandiloquente arranjo orquestral - que levou a gravação a ocupar os dois lados do disco - do maestro Radamés Gnatalli.

No mesmo ano, Ary deu início a uma série de gravações, ao piano, de versões instrumentais de músicas suas.

A primeira interpretação de "Aquarela do Brasil" coube a um desconhecido Cândido Botelho, no show beneficente "Joujoux e Balangandãs" de 1939 (houve outro em 1941), no Teatro Municipal, patrocinado pela primeira-dama Darci Vargas. Após seu lançamento em disco por Francisco Alves, a música ganhou versão em espanhol cantada por Pedro Vargas no filme musical "Laranja-da-China", em 1940. E em 1943, vertida para o inglês, recebeu o registro de Bing Crosby que instalou-a definitivamente no cancioneiro mundial, posteriormente com Frank Sinatra, além de Xavier Cugat.

Ary Barroso foi uma das estrelas mais brilhantes da constelação formada pelos grandes compositores da chamada era de ouro da história da música popular no Brasil (toda a década de 30 e o começo da seguinte). O autor também se distingue por ter criado uma das canções brasileiras mais conhecidas no mundo em todos os tempos: "Aquarela do Brasil", considerada uma espécie de hino nacional não oficial.

A esta altura, já tinha sido incluída, na voz de Aloísio de Oliveira, no filme "Alô, Amigos" (Brazil - estrelando o personagem brasileiro Zé Carioca), de Walt Disney. E este já havia colocado duas outras composições de Ary num outro filme seu, "Você Já Foi à Bahia?" (The Three Caballeros): "Na Baixa do Sapateiro" e "Quindins de Iaiá", esta na voz de Aurora Miranda, irmã de Carmen - que a esta altura virara uma grande estrela entre os norte-americanos.

"Aquarela do Brasil" (redenominada "Brazil", em inglês) e "Na Baixa do Sapateiro" ("Bahia", na versão) viraram big hits nos Estados Unidos, ultrapassando rapidamente a marca de um milhão de execuções no país; "Aquarela" chegou a quebrar a marca de dois milhões.

Este sucesso levou Ary a Hollywood por duas vezes em 1944, convidado a criar canções para trilhas de cinema. Na primeira, para o filme "Brasil", compôs "Rio de Janeiro" (que receberia indicação para o Oscar). Na segunda, permaneceu oito meses trabalhando, para musicar "Três Garotas de Azul". Nos Estados Unidos, ele conheceu várias celebridades, tendo sido recebido por algumas delas - como o jazzista Benny Goodman.

Enquanto isso, no Brasil, ele não parara de produzir novos grandes sucessos. Nos últimos anos havia emplacado "Os Quindins de Iaiá" com Ciro Monteiro e "Morena Boca de Ouro" com Sílvio Caldas, em 1941; "Faixa de Cetim" com Orlando Silva, em 1942; "Terra Seca" com o conjunto vocal Quatro Ases e um Coringa e "Pra Machucar Meu Coração" com Déo, em 1943; e "Na Virada da Montanha" com Francisco Alves em 1945.

Vinha também batalhando ativamente pela causa do direito autoral desde 1942, quando fundou e se tornou o primeiro presidente da UBC (União Brasileira dos Compositores). Foi quando, em 1946, ele se associou a colegas de classe para a formação de uma nova entidade: a Sbacem (Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Editores de Música).

Ao mesmo tempo, mais polivalente do que nunca, passou a atacar num novo front: o político. Naquele ano, candidatou-se a vereador no Rio de Janeiro, terminando a eleição em segundo lugar - perdeu a votação apenas para Carlos Lacerda. Em seu mandato, firmou-se como o maior defensor da construção do estádio do Maracanã e da sua localização, num terreno pertencente então ao Derby Club. Saiu-se vitorioso.

Em 1948, o compositor fez sua terceria estadia de trabalho em Hollywood. "O Trono das Amazonas", filme cujas canções ele foi incumbido de criar, acabou contudo não sendo finalizado.

Como apresentador do programa "Calouros em Desfile", ele não era menos polêmico. Rigoroso com os candidatos, dedicava-lhes um tratamento duro, às vezes cruel e grosseiro - uma manifestação a mais de um mau-humor que se tornou célebre. Mesmo assim, seu programa gozou de grande popularidade nos anos 40 e 50. E de prestígio, tendo lançado, já nos 40, cantores que vieram a se destacar posteriormente, como Lúcio Alves, Ângela Maria, Miltinho e Carmélia Alves.

No início da década de 50, Ary organizou a Orquestra de Ritmos Brasileiros, com a qual excursionou por países da América do Sul em 1953 e em 1955. Também neste ano, recebeu a condecoração da Ordem Nacional do Mérito, juntamente com o compositor Heitor Villa-Lobos. O encontro serviu para conciliar os dois, brigados desde que Heitor não dera a Ary o primeiro lugar num concurso de música.

Nos anos 50, embora diminuindo a sua produtividade musical, nem por isso ele deixou de emplacar alguns novos grandes sucessos nas paradas. Foram, por exemplo, os casos de "Rio de Janeiro" com Dalva de Oliveira, em 1951; de "Flor Tropical" com Mário Reis e "Risque" com Aurora Miranda, em 1952; de "Caco Velho" com Orlando Silva, em 1955; de "Folha Morta" com Jamelão, em 1956; e de "É Luxo Só" com Heleninha Costa, em 1957. Esta última foi criada para um espetáculo em sua homenagem: "Mister Samba".
  Nos anos 60, o artista não deixou de trabalhar, passando a apresentar também um programa na televisão. Mas não por muito tempo. Uma cirrose hepática adquirida em consequência de seu consumo de álcool, e que já vinha complicando a sua saúde havia alguns anos, acabou por levá-lo à morte em 1964. Ary Barroso morreu na noite de um domingo de carnaval, quando a escola de samba Império Serrano se preparava para entrar na avenida e apresentar o enredo "Aquarela Brasileira". Em sua homenagem, obviamente.

Entre nossos compositores, ele foi o primeiro a trabalhar e a se tornar conhecido fora do país; antes de Tom Jobim, nenhum outro obteve o seu sucesso internacional. "Aquarela do Brasil", bem como "Na Baixa do Sapateiro", também de sua autoria, foram as primeiras canções brasileiras que se tornaram clássicos nos Estados Unidos (seguidas, depois, por "Tico-Tico no Fubá" e os standards da bossa nova "Garota de Ipanema", "Meditação" e "Desafinado").

Em seus sambas-exaltação, Ary Barroso cantou as riquezas naturais (as matas, os rios, o mar, o céu) e humanas (a mulata, o negro, o moreno, o sertanejo, o malandro) do país. Compondo nesse estilo, ele deixou, além de "Aquarela do Brasil", outras relevantes criações como "Rio de Janeiro (Isto É o Meu Brasil"), "Isto Aqui o que É?" e "Brasil Moreno". O músico, no entanto, não se notabilizou apenas por ser o criador do samba-exaltação - que acabou tendo um grande cultor em Alcir Pires Vermelho, um seguidor do sambista.

 Ao contrário da grande maioria dos sambistas de sua geração, Ary Barroso tinha formação musical. Sabia ler música e transpunha suas notações para a pauta, enquanto compunha, ao piano (e não ao violão, como era comum). Várias de suas canções se mostram particularmente sofisticadas do ponto de vista harmônico, ou então apresentam uma linha melódica notavelmente elaborada.

Também diferentemente da maioria dos seus colegas contemporâneos, ele praticamente não parou de ficar em evidência como compositor - de fazer sucesso, enfim. O auge de sua obra se concentrou do início dos anos trinta à metade dos quarenta, mas seu período de vigência se estendeu até que ele morreu, em 1964.

Fonte: www.diminuto.braskernel.com

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